Sua clínica cresceu. O regime tributário ficou no que era.

Marianna Ventura
Marianna Ventura
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Semana passada, um dono de clínica me mandou o print de uma notícia sobre a Reforma Tributária e escreveu só: "Isso me afeta?"

Eu respondi com uma pergunta: "Você sabe quanto paga de imposto hoje?" Silêncio. Depois de dois minutos, veio: "O contador cuida disso."

É assim na maioria. O regime tributário da clínica foi definido junto com o CNPJ, no pacote do alvará e do contrato social. Dali em diante, o regime ficou no piloto automático enquanto tudo ao redor mudou. A clínica cresceu. A folha mudou com ela. O faturamento mudou também. O regime não.

E agora existe um motivo concreto pra revisitar isso. A Reforma Tributária não é mais projeto de lei. A CBS já está em fase de testes desde janeiro de 2026. Dependendo de onde a clínica está, o que vem pela frente pode ser alívio real ou pode ser um custo novo que ninguém planejou.

A Reforma Tributária já está rodando. O que muda pra clínica a partir de agora?

Em 2026, a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, que substitui PIS e COFINS) entrou em fase de testes com alíquota de 0,9%. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, que substitui ICMS e ISS) começou com 0,1%. Somando: 1% de alíquota de calibragem, já em operação (Assertif, fevereiro 2026). Esse 1% é fase de aquecimento. O objetivo é testar emissão, apuração, recolhimento e créditos. O impacto na carga tributária ainda é mínimo.

A virada acontece a partir de 2027. A CBS sobe pra alíquota de referência de 8,8%, e o IBS estimado fica em 17,7%. Somando, o IVA (Imposto sobre Valor Agregado, o imposto unificado da reforma) brasileiro chega a cerca de 26,5% (estimativa da Fazenda, Assertif 2026).

Antes de olhar pra esse número e congelar: o setor de saúde tem redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS. Está previsto na LC 214/2025, Anexo X, e inclui clínicas, consultórios, laboratórios e serviços de diagnóstico (Contabeis, artigo 72593, 2025). Na prática, aplicando a redução de 60% sobre uma alíquota padrão de ~27%, a alíquota efetiva estimada pra saúde fica em torno de 10,6% a 10,9% (Contabiliza Mais, 2025).

A alíquota estimada pra clínicas de saúde no novo IVA fica em torno de 10,7%. Boa ou ruim, depende de quanto a clínica paga hoje.

E é exatamente aí que a conversa fica pessoal. Porque 10,7% pode ser alívio pra quem paga 15%, e pode ser aumento pra quem paga 6%. Tudo depende do regime atual.

Pra quem está preso no Anexo V do Simples pagando 15,5%, a reforma pode ser saída. Pra quem paga 6% no Anexo III, pode ser susto.

Quanto a clínica paga hoje e quanto vai pagar amanhã

Vou resumir o cenário atual, porque o que importa agora é a comparação, não a mecânica.

Se a clínica está no Simples Nacional, o Fator R decide tudo. Fator R é a folha de pagamento dos últimos 12 meses dividida pelo faturamento bruto. Resultado acima de 28%: Anexo III, alíquotas a partir de 6%. Abaixo de 28%: Anexo V, a partir de 15,5%. Essa divisão é recalculada todo mês, e uma mudança no pró-labore ou na contratação pode jogar a clínica de um lado pro outro sem aviso (LC 123/2006, LC 155/2016).

Se está no Lucro Presumido, a carga tributária pra serviços de saúde fica entre 13,33% e 16,33% sobre o faturamento bruto, dependendo do ISS do município. Alíquota previsível, guias separadas. Fernando Pigatti, especialista em tributação pra saúde, estima a carga total do Lucro Presumido entre 16% e 20% quando se considera a totalidade de tributos sobre faturamento bruto (Contabeis, outubro 2025).

O Lucro Real é o terceiro regime disponível, mas raramente faz sentido para clínicas de pequeno e médio porte: exige escrituração contábil completa e só vantaja quando as despesas reais superam a presunção do Lucro Presumido, o que é incomum no perfil de clínica de saúde. Na prática, a decisão relevante é entre Simples e Presumido.

Gestora de clínica em corredor de clínica premium de costas, representando revisão do regime tributário
A CBS entrou em fase de testes em 2026. A maioria das clínicas não revisou o regime desde a abertura do CNPJ.

Agora coloca os três cenários lado a lado. Essa é a comparação que ninguém faz, porque os artigos sobre regime tributário da clínica param no Simples versus Presumido. Mas o terceiro cenário já é real.

Ponto de cruzamento: o Simples pode custar mais que o Lucro Presumido em qualquer faixa de faturamento quando o Fator R cai abaixo de 28%. Mesmo na primeira faixa (até R$180 mil de receita bruta anual), os 15,5% do Anexo V já superam os ~13,33% do Lucro Presumido. A troca de regime pode fazer sentido antes de a clínica crescer, não depois.

Quem pode se beneficiar da reforma: clínica que está no Anexo V pagando 15,5% ou mais. A queda pra ~10,7% é significativa. Clínica no Lucro Presumido com ISS alto (4% a 5%) também pode ver alívio, se a alíquota final do IVA saúde confirmar a estimativa.

Quem precisa prestar atenção: clínica no Lucro Presumido com ISS baixo (2% a 3%), onde a carga atual já fica perto de 13%. A diferença pro IVA é menor, e o ganho depende de créditos que a reforma permite.

Quem pode perder: quem está confortável no Anexo III pagando 6% a 8%. Se a reforma mudar a composição interna do DAS (que vai passar a embutir IBS e CBS, segundo a Agilize, 2026), essa faixa pode ficar mais cara do que é hoje.

A reforma não ajuda nem atrapalha todo mundo igual. Onde a clínica está hoje define se o que vem é bom ou ruim.

E vale registrar: o Simples Nacional continua existindo depois da reforma. Mas a guia unificada (DAS) vai incorporar os novos tributos na composição. A lógica de "estou no Simples, pago uma guia só, tá tranquilo" pode não sobreviver intacta à transição.

O Simples Nacional continua. Mas o DAS vai embutir IBS e CBS. A aritmética da faixa onde a clínica está pode mudar sem ninguém trocar de regime.

O split payment chega antes da reforma terminar

Se o regime tributário define quanto a clínica paga, o split payment (retenção automática do imposto no ato do recebimento) define quando.

A partir de 2027, o imposto (IBS e CBS) vai poder ser retido automaticamente no ato do pagamento. O caixa da clínica recebe o valor líquido, com o tributo já separado na hora. A implantação, segundo Marcos Hübner Flores, gerente do Projeto da Reforma Tributária na Receita Federal, começa em três fases: a primeira, em 2027, será facultativa e restrita a operações entre empresas. Só depois avança pra obrigatório e ampliado ao consumidor final (Contabeis, novembro 2025).

Pra clínicas, a fase que mexe no dia a dia é a de pagamento direto do paciente. Essa fase ainda não tem data definida. Mas quando chegar, o efeito no caixa é imediato.

Eu gerenciei uma clínica onde o dinheiro do imposto ficava na conta por 25 dias antes do vencimento da guia. Era com esse dinheiro que a gente cobria fornecedor na semana apertada, adiantava material, cobria o inesperado. Com o split payment, esse intervalo desaparece. O dinheiro do imposto nem chega a entrar. Quem já opera com capital de giro no limite precisa colocar isso na projeção antes que a mudança chegue.

O split payment é, antes de tudo, uma mudança de caixa. E caixa é o que separa clínica que respira de clínica que sufoca.

A lógica é parecida com o que acontece com recebíveis: a diferença entre o que foi faturado e o que está de fato disponível pra usar. Quando a clínica sabe exatamente quanto entra, quando cada parcela cai e quanto do faturamento de verdade é dela, absorve mudanças sem tomar susto. Conheça a Triagi e veja como clínicas estão organizando a própria receita com mais clareza.

Mão de profissional escrevendo com caneta azul em documento sobre mesa de madeira, representando planejamento financeiro e análise tributária.
Cada número no papel reflete uma decisão estratégica que molda o futuro financeiro da clínica, exigindo atenção e precisão na gestão tributária.

O que perguntar ao contador enquanto a janela de planejamento está aberta

O regime certo depende de faturamento, folha, ISS local, CNAE, estrutura jurídica. Não dá pra prescrever num artigo. Mas dá pra chegar no contador com as perguntas que transformam apuração em decisão.

1. Qual é a minha alíquota efetiva hoje, e como ela se compara com os ~10,7% do IVA com redução de 60% pra saúde?

Se a clínica está no Anexo III pagando 7%, o IVA novo pode ser aumento. Se está no Anexo V pagando 15%, é alívio. Se está no Presumido pagando 14%, fica perto. A comparação com o cenário futuro é o que torna essa conversa urgente em 2026.

2. O DAS vai mudar de composição com IBS e CBS. Isso mexe na minha faixa?

O Simples continua, mas a guia incorpora os novos tributos. O contador precisa projetar como isso altera a aritmética da faixa onde a clínica está.

3. Faz sentido reestruturar antes de 2027?

A transição vai até 2033, mas os efeitos no caixa começam em 2027. Quem planejar em 2026 escolhe. Quem esperar, se adapta no susto.

O salto tributário que a clínica precisa planejar agora

Antes: 2026: CBS 0,9% + IBS 0,1% (fase de testes, carga mínima) / Depois: 2027 em diante: CBS 8,8% + IBS 17,7% (alíquotas de referência)

Assertif 2026, com base em estimativas do Ministério da Fazenda

Regime tributário é pauta constante. Volta pra mesa toda vez que o faturamento muda, que a folha muda, que a lei muda. E a lei está mudando agora. Quem entende a própria carga tributária toma decisão melhor sobre onde investir, quando contratar e como distribuir custos fixos. E quando a receita cresce, ela fica na clínica, não escoa pro regime errado. Veja como a Triagi ajuda clínicas a crescer com mais receita e mais controle.

Cirurgião com máscara e luvas realiza procedimento sob foco cirúrgico, simbolizando precisão e cuidado em ambiente hospitalar.
A precisão e o foco necessários em cada procedimento refletem a atenção aos detalhes que toda clínica busca em sua gestão.

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